quarta-feira, 17 de novembro de 2010

MEUS OITO ANOS

         Quem não tem recordações do tempo de infância? Foram eles os meus melhores momentos.
         Aos sete anos de idade, fomos morar num lugarejo chamado Boa Vista , hoje cidade, no interior da Paraíba
         Corríamos livres pelas calçadas e pelas ruas. Quase não havia carros, era tudo muito tranquilo e quieto.
         Todos se conheciam, amizade existia de verdade.
         Éramos três, eu e mais dois irmãos, ambos mais novos , diferença apenas de um ano e meio de um para o outro.
        Minha mãe sempre dedicada aos trabalhos domésticos e cuidados estremo conosco.
        Meu pai homem pacato, simples e bom pai.
        Como eram doces e suaves as manhãs, logo cedo minha mãe me arrumava para ir a escola. Na época era a única existente la. GRUPO ESCOLAR TEODÓSIO DE OLIVEDO LEDO, ficava perto da nossa casa.
      Minha primeira professora chamava-se Leda, com que carinho tratava a todos e eu lhe queria muito bem. Guardo uma leve recordação da sua fisionomia, era branca  como a neve, os cabelos quase longos os quais faziam uns cachos nas pontas, costume daquela época.
      Minha segunda professora chamava-se Daquia.Uma senhora meios robusta, cabelos pretos , tinha o rosto bonito. Esta nunca  simpatizou comigo, parece que eu  era muito levada e com certeza lhe dava muito trabalho  (na verdade  eu era uma criança  sonsa, ou seja, quieta na frente das dos professores e levada quando estes não estavam presente.)
     Bem no centro do povoada havia e ainda há uma igreja, os muitos degraus que dão para as portas principais, serviam para brincarmos de subir e descer, apostando carreira.
     A festa da padroeira era muito bonita. Uma semana de festa. Parque infantil, barracas com muita comida e um cachorro quente recheado de galinha de capoeira que dava agua na boca.
     Uma boa parte dos vestidos das meninas eram confeccionados em Campina e ficavam escondidos para serem mostrados apenas no dia da festa, cada dia um vestido, cada um mais bonito que outro. Era um verdadeiro desfile de moda infantil e de adultos também.
     Um grande pavilhão era montado bem na frente da igreja, onde comia-se e bebia-se a vontade e para arrecadarem mais dinheiro, fazia-se grandes leilões com com toada aquela gente. E os mais poderosos faziam questão de esnobarem, dando cada vez mais  lances mais altos. Naquela época eu não entendia nada daquilo, apenas me divertia muito com toda aquela criançada. E era muito bom.   
     Meu pai sempre muito alegre e brincalhão era também um dos organizadores da festa, sempre estava cooperando com algo.
    Nos dias de chuva corríamos rua acima, rua abaixo, aproveitando a água que escorria dos telhados.
    A bica da casa de Lita e de Dona Justina era uma das melhores, pois a força da agua até doía quando batia na cabeça.
    Sempre depois deste banho de chuva, nossa mãe nos dava um banho quentinho, nos vestia com pijama bem limpos e cheirosos, ficávamos bem agasalhados, tomávamos um copo de leite bem quentinho. Ela sempre dizia que era pra esquentar os pulmões e nos conduzia pra cama. Fosse de manha ou de tarde, parecia um ritual, ela sempre agia assim.
     Ainda neste período de inverno  corria  adultos e crianças para a beira do rio, esperar a  água do rio subir e la tomávamos banho na correnteza. Do nosso lado estava sempre nossa mãe, com o cuidado para que nada de mau nos acontecesse e não fossemos para a parte funda do rio. Era uma maravilha indescritível...
    Havia perto dali uma fazenda que pertencia a uns amigos e parentes e uma vez por outra íamos passar o sábado ou domingo  la.
    Era muito bom, o cheiro do campo, a relva fresquinha., o orvalhos molhando a grama, o cheiro do curral e o leite fresquinho tomado ainda morno direto do peito da vaca ( como se diz aqui) . O açúcar colocado no copo  o leite fazendo aquela espuma, tinha um sabor que nuca mais consegui sentir.
    Era tudo maravilhoso, um sonho!
    Brincávamos no curral e ao redor da casa grande com cabos de vassoura, os quais na nossa imaginação dizíamos que eram os cavalos.
    Amarelinha (cademia), esconde - esconde, baleada, cobra cega, roda, jogo de pedras,cirandas, passaras,pula corda  bonecas feitas de pano ( enrrolavamos os lençóis e vestíamos como se fossem bebes) todas essas e tantas outras brincadeiras tornavam o nosso mundo encantado, onde a fantasia dava lugar a imaginação e éramos muito felizes.
     Aos nove anos vim morar em Campina na casa de uma tia (Tintinha).                 
     Ai acabava-se todo o encanto, toda a beleza da minha infância.
     A cidade grande não tinha nada para oferecer, ficava o dia todo trancada dentro de casa. Escola casa, casa escola, algumas vezes aos domingos ia para a casa de minhas tias, brincar um pouco com minhas primas, isso era tudo.
   Minha tia enchia-me de mimos para que eu superasse a falta da minha família e a liberdade que tinha la, mas nada preenchia aquele paraíso onde éramos livres, leves, soltos e felizes.
    Um ano depois meus pais vieram morar em Campina onde estamos até hoje.
    Uma poesia trago sempre na lembrança e transporto-me para aquela época e sinto na lembrança o cheiro da terra, a sensação de liberdade, a fisionomia dos meus pais ainda muito jovens e lindos, meus irmãos, a rua de cima e a rua de baixo, minhas amiguinha, aqueles bolinhos de goma, raminhos e sequilos que minha mãe fazia.
 Há quanta saudade....e uma vez por outra me encontro recitando esta poesia.
    



                                        







                                           MEUS OITO ANOS                               (                                                                                                      Casimiro de Abreu )   


                       
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!


Que amor, que sonhos, que flores,


Naquelas tardes fagueiras debaixo dos laranjais!




Como são belos os dias
do despontar da existência!

Respira a alma inocência
como perfumes a flor;

O mar é lago sereno, o céu  um manto azulado,


O mundo  um sonho dourado,


A vida  um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,

Que noites de melodia, naquela doce alegria,
 


Naquele ingênuo folgar! O céu bordado d'estrelas,


A terra de aromas cheia,
as ondas beijando a areia

E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era, nessa risonha manhã!
 

Em vez das mágoas de agora,

Eu tinha nessas delícias

De minha mãe as carícias


E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas, Eu ia bem satisfeito,


Da camisa aberta o peito, pés descalços, braços nus
 

— Correndo pelas campinas a roda das cachoeiras,


Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos Ii colher as pitangas,
 

Trepava a tirar as mangas,

Brincava à beira do mar;

Rezava às Ave-Marias,

Achava o céu sempre lindo.

Adormecia sorrindo

E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras
            Debaixo dos laranjais!            






 

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